segunda-feira, 19 de julho de 2010

Coisa de mulherzinha




Eu nunca sonhei em ser Comissária de Bordo, eu sempre sonhava um dia poder pilotar um avião. Nunca senti vontade de ser professora, mas sempre quis abrir uma escola para os mais necessitados. Nunca fui muito fã de jogar vôlei, eu gostava mesmo era de chutar as canelas no futebol. Às vezes eu tentava brincar de boneca, mas resolvia sair atrás do meu irmão empurrando um caminhãozinho.

Nunca fui do tipo de me apaixonar. Minha mãe brincava comigo a respeito de namorados e eu dava de ombros. Eu trocava toda a qualquer brincadeira com a Barbie por um belo vídeo-game de lutinha. Sempre assim, sempre o oposto. Sempre preferi as coisas que eram aparentemente mais difíceis e aquelas que me eram, feministamente, proibidas.

Muito minha mãe brigava comigo quando eu era pequena por sempre viver no meio da gurizada. Éramos eu, meu irmão, meus primos e alguns amigos da vizinhança. Sempre fui contra as gurias, elas eram muito cheias de firulas, nunca vi! Caiam um tombo e sangravam, pronto era um ‘berril’ só. Não tinha quem suportasse, ou àquelas que nunca corriam por que iriam descabelar as madeixas! Ah! Me polpe, eu pouco tinha paciência para isso. Eu queria era viver mesmo.

Queria saber o que era cair um tombo de verdade, jogando um belo e cansativo futebol. Queria saber por que os meninos mancavam quando voltavam do campo de futebol e foi aí que eu descobri o que eram as famosas 'rosetas'. Eu queria brincar de carrinho, por que a gente viaja, sonhava em estar em outro lugar. Eu... sempre sonhadora!

Brincar de boneca era tão maçante. Ficávamos ali fingindo ser mamães sem ao menos sabermos trocar uma fralda. Sempre fui contra tudo isso, apesar de ceder às vezes. Talvez seja por isso que eu sou tão auto-suficiente. Claro, que eu confesso muitas vezes entregar-me a brincar de boneca num dia de chuva e que meu irmão estivesse doente, mas eram raras às vezes.

Adorava andar de carrinho de lomba e me estrebuchar no chão, sem chorar é claro, porque chorar era coisa de mulherzinha. E vendo tudo isso, tudo que eu tentei fazer diferente na minha vida desde a infância que eu vejo o porquê eu sou tão forte para tantas coisas. Sempre fui assim, de desafiar a vida, de desafiar o certo, de desafiar a mim mesma.

E sabe qual a melhor parte disso tudo? Saber que sou capaz. E que, principalmente, deixo de ser apenas mais uma.

GEDIEL, Camila. Coisa de mulherzinha. 2010.

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