sábado, 4 de setembro de 2010

Maria Mole

Cresci ouvindo as pessoas dizer a seguinte frase: 'Bonzinho, só se f0d&'. E, por incrível que pareça hoje eu percebi que essas pessoas tinham razão.

Lembro de quando eu era pequena e vivia mentindo, tudo dava certo, eu mentia tão bem que dificilmente alguém descobria. Minha mãe me chamava de fria e calculista, por que raramente eu errava qualquer detalhe nas coisas que eu fazia.

Depois de um tempo eu cansei de fazer aquilo e resolvi começar a ouvir melhor as coisas que a minha avó falava. Por exemplo: "Mi, tu tem que ser verdadeira sempre, não mente e jamais faça alguém sofrer. Dê sempre o teu melhor e o teu amor, ninguém constrói nada em cima de mentira".

Demorei um tempo até aceitar a dica da vovó, e só dei ouvidos para ela quando comecei a perceber que atualmente raras são as pessoas que são verdadeiras, pois o que mais existente é gente fria e calculista, como eu era.

Minha vontade de começar a seguir a dica da minha vovó só se manifestou 100% quando comecei a falar a verdade e minha mãe não acreditava mais em mim. Foi aí que resolvi mudar de vez. Eu deveria ter uns 16~17 anos quando resolvi mudar mesmo. Parar de mentir, omitir e calcular.

Comecei a fazer tudo certo, se eu não estudava, eu não colava, se eu namorava eu não traia (nunca traí ninguém, meu pecado mesmo era mentir pra minha família), se eu era amiga eu não era falsa e assim por diante. A legitima pessoa perfeita. Claro que eu sempre fui bastante louca demais, fazia todo mundo rir com qualquer besteira, pirava o cabeção geral, vamos dizer assim. Mas a partir daquele ano comecei a fazer tudo certo.

Era fiel, não mentia, não traia, não enganava, não usava, não maltratava, nada. Foi ótimo no começo, tudo era tão bom e parecia tão sincero, mas com o passar dos dias, meses e anos as coisas começaram a ficar diferentes e as pessoas começaram a se aproveitar da minha bondade.

Certamente lembro ter engolido o choro quando meu segundo namorado me disse: "Mi, tu é boa demais, tu não pode ser assim, as pessoas não dão valor pra quem as trata bem, tu tem que ser ruim, tem que ser má, se tu quer que alguém goste de ti de verdade". Lembro que o engolir o choro quando escutei essa frase não bastou, tanto que lembro-me dela até hoje e passei uma semana inteira pensando sobre isso e constatei que, infelizmente, ele tinha razão. Ninguém valoriza quem trata a gente bem mesmo, só quem tem essa pureza que eu tenho consegue retribuir em igualdade. Mas normalmente, quase todo o ser humano gosta do que é mais difícil, gostar de ser maltratado. E como é triste, saber que isso é a verdade.

Sempre penso em voltar a ser aquela sujeitinha má que eu era antes, mas nada no mundo paga a sensação que é saber que têm-se um coração raro e diferente de qualquer outra pessoa, com princípios e repleto de amor. Eu tenho essa casca dura por fora, mas por dentro sou mais mole que maria-mole, mais doce que batata-doce. Amo com o coração, respeito com o coração, tudo com o coração e como me faz feliz saber que minha avó tem orgulho de eu ter seguido ela.

Por mais que ser boazinha doa e faça eu me ferrar sempre, eu sinto orgulho de mim mesma por ter um coração tão raro e bom, que consegue fazer de cada mágoa, de cada decepção um degrau, um tijolinho a mais que só aumenta, que só qualifica a pessoa que eu sou.

E, é com esse sorriso no rosto que eu espanto toda e qualquer dor que assole meu coração. Esse é o meu jeito de superar. E não pense que eu não choro, porque eu choro e choro demais, mas choro sozinha no meu canto. Choro pelos outros, mas raramente faço alguém chorar, simplesmente porque eu não mereço a preciosidade da lágrima de ninguém.

GEDIEL, Camila. Maria Mole. 2010

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